Fonte: Ruben Siqueira – Coordenação Nacional da CPT | Imagens: CPT Pará

Publicada em 27.05.2017

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Cerca de 250 pessoas, entre estudantes, professores e militantes de movimentos e organizações sociais, saíram às ruas de Marabá, no Pará, no dia 25 de maio, ao final da tarde, para denunciar e protestar contra as autoridades policiais responsáveis pelo Massacre de Pau D’arco, a 350 km dali, que vitimou 10 camponeses sem terra no dia 24.

Ao saberem que cinco das vítimas estavam no Centro de Perícias Científicas, em Marabá, interromperam um seminário sobre recursos hídricos e desenvolvimento da Amazônia, que se realizava no campus da Universidade Federal, e para lá se dirigiram, também para exigir que o Estado cuidasse de levar os corpos em condições de serem velados e sepultados dignamente por seus familiares.

No início do ato, jovens encenaram uma matança de camponeses que trabalhavam a terra, simulando sua ressurreição pela luta de suas organizações representativas e de todos: “Mataram mais 10 irmãos, mas eles ressuscitarão, ressuscitarão… e o povo não esquecerá…”. Depois, seguiram pelas avenidas, interrompendo o tráfego sem ajuda da polícia, portando cruzes negras, flores amarelas, velas brancas, fotos dos mortos no massacre e estandartes dos mártires da luta pela terra, da qual a região paraense é a trágica campeã histórica.

Cerca de dois quilômetros após, à frente do Centro de Perícia, o sol já se pondo, os manifestantes em círculo, os objetos foram postos na calçada e as velas acesas com muita emoção. Foi declamado o poema de Pedro Tierra, “Pedagogia dos aços”, feito à vista do Massacre de Eldorado dos Carajás, de 19 sem-terra, em 1996, há 21 anos: “O sonho vale uma vida? Não sei. Mas aprendi da escassa vida que gastei: a morte não sonha. (…) Se calarem, as pedras gritarão”.

Soube-se que os corpos tinham sido levados para Redenção meia hora antes. Seguiram-se falas indignadas contra a violência de sempre no campo, mas em crescimento assustador nos últimos meses, reflexo dos golpes, desmandos políticos e retrocessos sociais que vive o país. Com estes 10, já foram 37 pessoas assassinadas no campo nestes primeiros cinco meses do ano. Além disso, há ainda mais seis casos de mortes sendo investigados, o que triplicaria – em relação a igual período do ano passado – o número de camponeses, quilombolas e indígenas matados em busca ou na defesa de suas terras e bases de vida.
Foram lembrados os massacrados de Colniza, Mato Grosso, em 20 de abril, o ataque ao Povo Gamela, no Maranhão, em 30 de abril – um massacre de camponeses por mês. E que o de Pau d’Arco é o maior desde o de Eldorado, em 1996, não muito longe dali. À proclamação dos nomes dos 10 assassinados, todos gritavam “presente, presente, presente”. E a lista histórica e infindável de matados na luta do campo, foi sendo recordada, eles e elas de novo e sempre presentes.

Antes de o ato ser encerrado com oração do Pai-Nosso rezada de mãos dadas, foram rememoradas as razões de alguns mártires: “Melhor morrer na luta que morrer de fome“ (Margarida Maria Alves, PB, 1983), “Onde nóis derrama o suor, nóis derrama o sangue” (Zacarias José dos Santos, BA, 1985) e “Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma causa justa” (Pe. Josimo de Moraes Tavares, TO, 1986). Serviram de alento, encorajamento e esperança. “Nenhum minuto de silêncio, uma vida toda de luta!” Com este compromisso, voltaram-se todos para suas lidas e lutas, o seminário sendo retomado na universidade.