Fonte: Bruno Cezar Malheiro/Ponto Crítico | Imagem: Ponto Crítico

Publicada em 27.05.2017

O 17 de abril de 1996, dia em que 21 camponeses foram assassinados pela polícia em Eldorado dos Carajás encontra-se, 21 anos e dois dias depois, com o 19 de abril de 2017, quando 9 camponeses foram torturados e mortos em Colniza no Mato Grosso e, 11 dias depois, com o 30 de abril de 2017, quando indígenas Gamela foram atacados brutalmente em Viana no Maranhão. O 12 de fevereiro de 2005, dia em que Irmã Dorothy Stang foi assassinada em Anapu está em 4 de maio de 2017, quando Kátia Martins, liderança camponesa, é executada em Castanhal e está também um dia depois quando Eduardo Soares da Costa também é torturado e morto em Eldorado dos Carajás, sempre no Pará.

No mesmo dia em que a polícia jogava bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha em manifestantes em Brasília, em defesa às vidraças dos ministérios e de um governo e congresso nacional ilegítimos, a polícia do Pará assassinava 10 trabalhadores rurais no município de Pau D’Arco, no cumprimento de uma ação de despejo na fazenda Santa Lúcia, segundo a Comissão Pastoral da Terra.

Os fios que tecem as histórias parecem soltos, mas podemos facilmente juntá-los. O desgoverno de Michel Temer teve sua maior crise política depois das delações de Joesley Batista, dono da JBS, empresa batizada com as iniciais do nome de seu pai: José Batista Sobrinho. A JBS é a expressão máxima de como funcionam os negócios do agro no Brasil, recebendo cerca de R$ 10,63 bilhões do BNDES e construindo um império de relações nefastas.

A empresa já foi acusada de envolvimento no esquema de corrupção para comercialização de carne sem a devida inspeção sanitária pela operação Carne Fraca, e multada em R$24 milhões pelo IBAMA, por meio da operação Carne Fria, por compra de gado de áreas desmatadas ilegalmente, por seus frigoríficos de Santana do Araguaia e Redenção no Pará. Além disso, já foi obrigada, pelo Tribunal Superior do Trabalho, a pagar R$10 milhões, em 2014, por condições insalubres de trabalho em frigoríficos da Seara, pertencente ao grupo, além de cobrada pela Receita Federal, em 2016, em R$3 bilhões por fraudes. O império, que financiou 1.829 candidatos de 28 partidos em troca de favores políticos, é só a ponta de um novelo que liga os ternos dos políticos, o dinheiro dos grandes latifundiários e seus empreendimentos e as fardas da polícia em um país em que o Agronegócio é cada vez mais quem dá as cartas.

Os negócios do agro encurralaram a política partidária e, há tempos, envolvem também a polícia. As propinas de Brasília têm relação direta com o aumento desenfreado da violência no campo. A Frente Parlamentar da Agropecuária, abastecida com dinheiro de Joesley e tantos outros – que na legislatura de 2010 a 2014 tinha 120 deputados e atualmente possui 207 dos 513 existentes, além de 24 senadores – lança quase diariamente, através de orientações publicadas em seu site, como cada parlamentar deve se posicionar na pauta legislativa, numa clara campanha de flexibilização das legislações ambientais e ataque aos direitos territoriais de indígenas, quilombolas e camponeses. Ao mesmo tempo, na ponta desse processo, grandes latifundiários, blindados pela impunidade e com a cumplicidade da polícia, sentem-se autorizados a matar. As mãos que desfazem as leis autorizam a morte; ternos e fardas, movidos pela ordem da propriedade privada, jorram sangue.

Na contramão dessa tessitura vil, 100 mil pessoas protestavam em Brasília, camponeses acampavam no Pará. Nas pautas, a luta contra a mercantilização da terra, que retira as condições de existência de milhares de camponeses; a luta contra a mercantilização dos corpos, que coloca na esfera do trabalho todo o tempo de vida dos trabalhadores – seja pela flexibilização dos direitos trabalhistas ou, ainda, pela retirada do direito à aposentadoria; e a luta, enfim, contra a mercantilização da política, tornada refém das grandes empresas financiadoras de campanha.

Diante deste cenário, a mídia reage com enormes campanhas publicitárias a favor do que batizou de ‘Agro’ e, como um dispositivo capaz de transformar versões abjetas sobre os fatos em verdade pública, prefere, em Brasília, mostrar insistentemente as vidraças quebradas dos ministérios e persistir na tese da violência dos protestos, esvaziando toda a teia de relações e ataque aos direitos empreendidos pelo desgoverno. Já em Pau D’Arco, insiste na tese de confronto, numa chacina em que 10 camponeses morreram e nenhum policial foi ferido.

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Os holofotes seletivos da mídia parecem ajudar a criar uma lógica de distribuição espacial das táticas de violência e de governo das populações no Brasil, isto é, na sociedade do espetáculo, o que ainda se vê se reprime e o que não se vê se mata.

A luminosidade de certos espaços garante uma munição mais leve, mas nem por isso não violenta e, por vezes, letal. Entretanto, a opacidade de outros espaços, construída por uma indiferença consentida pelos grandes veículos de mídia, transforma-os em zonas de morte. E, assim, o governo dos corpos segue essa geopolítica nefasta criada por arranjos torpes e organizada pelos focos das câmeras de TV.

O Brasil criou suas zonas de extermínio, lugares em que o exercício do poder se faz pela morte. A indiferença em relação a isso é, na verdade, conivência, uma vez que só se mata pela certeza da impunidade e da não visibilidade, pela certeza que o emprego da força desobriga a norma, pela certeza da existência de espaços vazios de direito em que tudo se pode, espaços excluídos do imaginário de nação difundido, esvaziados de seus atributos e postos numa zona de indistinção, onde a violência extrema é a força de uma lei fora da lei.

O interior da Amazônia, assim como a periferia das grandes cidades, tornaram-se zonas de extermínio e, aqueles que lutam por direitos e que ainda constroem relações de sentido intensas com a terra, com a floresta, com a cidade, são jogados na vala comum da indiferença pela sacralização da mercadoria e da propriedade privada. E, assim, nosso estado de exceção tornado regra continua produzindo massacres atrás de massacres.

Seja em Brasília, seja em Pau D’Arco, o fato é que Estado brasileiro construiu suas tecnologias de destruição com níveis distintos de intensidade e força. De um lado, o ataque aos direitos fundamentais são, em si, um modo de deixar morrer, sobrecarregando os corpos de trabalho, tirando-lhes o descanso, a saúde, a mobilidade e a dignidade. Por outro lado, quando os corpos se cansam de serem atacados e se reúnem, toda uma tecnologia de repressão se define pelo ataque aos sentidos, através das bombas de gás lacrimogêneo, pela a marcação da pele, com as balas de borracha, ou pelo extremo letal de munições que atravessam os corpos e lhes retiram a vida.

Dos movimentos sociais do campo vêm um ensinamento potente: “aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de lutas”. O silêncio aos crimes de Estado são a munição para novos ataques e massacres e a luta permanente e cotidiana é a única maneira de transformar os espaços de indistinção, as nossas zonas de sacrifício e de extermínio, em lugares em que a vida é possível.

No mesmo dia, 24 de maio, em que a política do Distrito Federal reprimiu manifestantes em Brasília e a polícia do Pará matou 10 camponeses em Pau D’Arco, num ataque aos corpos para a defesa de bens, há seis anos atrás, Maria do Espirito Santo e José Claudio Ribeiro, ambientalistas que viviam e lutavam pela floresta, eram assassinados cruelmente no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira em Nova Ipixuna no Pará. A memória é uma das poucas armas que temos para que tudo não caia no esquecimento e se repita. Mas, como continuamos a tratar com indiferença tanta dor, a história teima em se repetir.

O 17 de abril de 1996, dia em que 21 camponeses foram assassinados pela polícia em Eldorado dos Carajás encontra-se, 21 anos e dois dias depois, com o 19 de abril de 2017, quando 9 camponeses foram torturados e mortos em Colniza no Mato Grosso e, 11 dias depois, com o 30 de abril de 2017, quando indígenas Gamela foram atacados brutalmente em Viana no Maranhão. O 12 de fevereiro de 2005, dia em que Irmã Dorothy Stang foi assassinada em Anapu está em 4 de maio de 2017, quando Kátia Martins, liderança camponesa, é executada em Castanhal e está também um dia depois quando Eduardo Soares da Costa também é torturado e morto em Eldorado dos Carajás, sempre no Pará.

Esses rastros de dor nos mostram uma longa história em ruinas de um país em que o massacre aos mais vulneráveis é tratado como sinônimo de desenvolvimento, em que a violência aos povos camponeses e indígenas é compreendida como progresso, em que a existência de espaços, aos quais não se olha e onde tudo pode acontecer, justifica a morte de pessoas que ninguém liga, em que, enfim, a defesa da propriedade privada é mais sagrada e importante que a defesa da vida.

No país em que ruralista corrupto é pop e defensor de direitos é baderneiro, o mundo parece visto como uma coleção de bens em que apenas seus proprietários têm direito à cidadania. Todos os não proprietários são corpos esvaziados de direito a serem estilhaçados em nome da lei e da ordem dos proprietários. O Estado e a mídia são as armadilhas que tornam essa equação algo normal.

Trocar as lentes que captam o mundo torna-se uma necessidade cada vez maior! Ver pelos olhos daqueles que sofrem na pele as consequências das formas abjetas de construção das regalias e das propriedades no Brasil parece ser a única forma de construirmos empatia entre nossos corpos despedaçados, afetos que nos permitam mudar a equação social vigente para a qual nos é reservada a morte.

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