Fonte: Lilian Campelo/Brasil de Fato | Imagem: Lilian Campelo/Brasil de Fato | Edição: Camila Rodrigues da Silva/Brasil de Fato
Publicada em 31.05.2017

O trabalhador rural Iranildo Porto, 55, vive há nove anos no acampamento Campina Verde, em Redenção (PA), e está preocupado com o que poderá acontecer com os camponeses que moram em acampamentos rurais na região do sudeste do Pará após a chacina que matou dez pessoas na última quarta-feira (24) na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, cidade próxima de onde mora. As mortes de nove homens e uma mulher ocorreram durante uma operação policial.

“Quando a gente vê o que aconteceu com os nossos companheiros, ficamos preocupados. Porque tem várias situações: tem a questão agrária, que nunca acontece, que cabe ao governo federal. Existe um processo de desapropriação? Existe. Ela é legal, mas precisa ser feita dentro da legalidade”, ressalta.

Porto é presidente da associação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais

do acampamento onde vive, que reúne 215 famílias (com cerca de 50 crianças), há nove anos. Ele tem medo que a mesma tragédia possa acontecer no acampamento onde mora.

Há razões para o receio de Porto: segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a violência no campo cresceu 26% de 2015 a 2016, e o massacre de Pau D’Arco tem muitas semelhanças com o de Carajás, que ocorreu em 1996 e vitimou 19 trabalhadores rurais sem-terra na mesma região do Pará.

Segundo o advogado da CPT José Batista, há um elemento nos dois massacres que comungam entre sim: tratar a questão agrária como caso de polícia, que age na região com liberdade para tomar medidas violentas amparadas pelo compasso da impunidade.

Em sua análise, Batista traça um paralelo nos casos e observa que a ação das Polícias Militar e Civil da região está, mais uma vez, aliada aos interesses dos grandes proprietários de terras. “Em muitas situações, policiais trabalham como segurança de fazendas”, afirma.

Batista pondera que, no caso de Pau D’Arco, existem novos elementos, já que as ocupações realizadas nos últimos anos contaram com o apoio de novos movimentos do campo e atuam de forma independente.

Ele estima que, atualmente, haja mais de 160 acampamentos em área rurais nas regiões do sul e sudeste do Pará. Algumas delas são ocupadas por grupos menores de famílias – o que, em sua análise, expõem os trabalhadores a uma maior vulnerabilidade de ações de pistoleiros.

Outro ponto destacado por ele é que em Pau D’Arco a ação policial para o cumprimento dos mandados judiciais, segundo os depoimentos das testemunhas, tinha como objetivo surpreender os trabalhadores. Contudo mais uma vez, assim como em Eldorado, o massacre que vitimou os dez sem-terra foi um recado e uma demonstração de força do poder do latifúndio na região.

“Um recado de ‘não incomodem, não ocupem e não causem prejuízos ao latifúndio dessa região’. Essas são as razões que estão por trás de um ato tão violento como foi esse aqui”, avalia.

Placa homenageia os 19 sem-terra mortos em Eldorado de Carajás, em 1996

Por sua vez, o agricultor Iranildo Porto ainda acredita que a melhor solução é a reforma agrária, mas não vislumbra que isso possa acontecer no atual cenário político. “A reforma agrária é a saída para acabar com o conflito agrário hoje. A gente crê que ter um pedaço de terra para sobreviver é bom. É a única coisa que vai nos alimentar, porque a gente não tem profissão; nascemos agricultores e vamos morrer agricultores. Mas, por outro lado, a gente vive um momento difícil, em que não sabemos em quem acreditar e se podemos confiar no governo”, pondera.

Raízes históricas

Batista argumenta que violência policial contra trabalhadores sem-terra possui raízes históricas na região. Ele lembra que a Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970, agravou ainda mais esse cenário. “Foi quando o exército massacrou um grupo de guerrilheiros do PCdoB que organizava a guerrilha rural na região do Pico do Papagaio”, relembra.

“Após esses acontecimentos [Guerrilha do Araguaia], trabalhadores rurais e suas lideranças passaram a ser sistematicamente perseguidos, espionados e, muitas vezes, presos injustamente pelo Exército e pelas polícias civil e militar”.

O advogado da CPT aponta ainda que essa relação histórica das forças armadas com o latifúndio criou no meio das corporações policiais “uma aversão forte ao movimento social, principalmente a trabalhadores rurais sem-terra”:

“Quando ocorria algum conflito coletivo pela posse da terra, geralmente as lideranças eram mapeadas. Muitas vezes, manchetes de jornais afirmavam que ali poderia ser um ressurgimento da Guerrilha do Araguaia, para justificar o emprego da violência por parte da polícia contra os trabalhadores rurais”.

Ele explica, por fim, que, com a chegada do MST na região, a luta pela reforma agrária passou a ser pública. Em vez de pequenos grupos de trabalhadores rurais, “centenas e milhares de famílias” ocupavam fazendas improdutivas, o que dificultou a ação de pistoleiros na região. Como o movimento começou a representar um perigo aos interesses do latifúndio, era preciso dar um freio.

“O objetivo do massacre dos Carajás era impedir que o movimento sem-terra se territorializasse aqui na região. Era impor uma derrota no MST”.

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