Fonte: Luka Franca/ Blog BiDê | Imagem: Elielson Silva/ Observatório do Massacre

Publicado em 01.06.2017

Pará e São Paulo encontram seu ponto de convergência na truculência policial e interesses por terra

Nas últimas duas semanas tivemos dois acontecimentos brutais em nosso país que precisam de toda a nossa atenção. O primeiro foi em São Paulo, quando governos tucanos (estadual e municipal) entraram com toda força policial que tinham na Cracolândia. O segundo foi no mesmo dia da marcha à Brasília contra as reformas e pelas diretas já, quando 10 trabalhadores rurais paraenses foram massacrados pela polícia do governo estadual tucano.

E por qual motivo me desafiei a pensar os dois acontecimentos que parecem distintos em um mesmo texto? Ora, um foi no norte e outro no sudeste, um lida com questão de guerra às drogas e o outro com questão agrária, a priori realidades muito distintas. A questão é que a violência policial, criminalização da pobreza e movimentos sociais, faxina étnica e um tanto de outros elementos colocam essas duas brutais violências como parte da mesma realidade.

Mas por que fazem parte da mesma realidade? Começamos pelo fato da região norte do país concentrar o maior número de negros e indígenas do Brasil. Só o Amazonas possuí, em termos absolutos, a maior população indígena do país e o norte junto com o nordeste é uma das regiões que mais concentra negro no Brasil, ambas regiões juntas somam 75% da população negra brasileira. Ou seja, quando falamos de um massacre ocorrido no norte ou nordeste do país falamos de um avanço no processo de genocídio da população negra e indígena que historicamente foi construído em nosso país. Além disso a guerra às drogas serve a faxina étnica e ao encarceramento em massa da população negra, indígena e pobre brasileira.

Em nosso país, segundo o Conselho Nacional de Justiça, um em cada 4 presos foram condenados por roubo ou tráfico de drogas. Há também o fato de que a região onde se encontra a Cracolândia é alvo do interesse da especulação imobiliária em São Paulo há muito tempo.

O Brasil é o sétimo país que mais mata no mundo, o quinto que mais encarcera e é líder no ranking dos países em que mais mortes em conflitos de terra. Pau D’Arco e Cracolândia encontram seu ponto de convergência na truculência policial, racismo e interesses por terra. Os dois acontecimentos ocorrerem durante uma semana importante para a política nacional e o processo de luta contra o golpe, reformas genocidas da previdência e trabalhista e por diretas já dão o tom mais sombrio ao processo que temos enfrentado.

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Imagem: Elielson Silva/ Observatório do Massacre em Pau d’ Arco

A mesma polícia que duramente reprimiu a grande marcha contra as reformas e por diretas já em Brasília é a mesma que assassinou 10 trabalhadores rurais em Pau D’Arco, interior do Pará, e atou com truculência na dispersão de usuários na Cracolândia. É pelo que significa o racismo estrutural em nosso país e a centralidade que ele toma dia após dia, junto com a luta de classes, que não podemos desconectar esses acontecimentos de uma leitura importante: nós, negros e indígenas, nunca paramos de morrer neste país e com o advento do golpe se aprofunda a dura política de repressão existente no Brasil, criminalização e assassinato que enfrentamos cotidianamente em diversas regiões do país.

Importante ressaltar que tanto o massacre de Pau D’Arco quanto a ação policial truculenta na Cracolândia remontam a episódios fatídicos da história nacional. É inevitável pensar no massacre de Eldorado dos Carajás em 1996 e a Operação Sufoco em 2012. Há anos há um remonte da estrutura de perseguição das nossas vidas, a posição que vemos hoje os governantes tomarem frente os episódios recentes mostram a tônica do recrudescimento da criminalização da pobreza e movimentos sociais aprofundados pelo advento do golpe. Para além disso, demonstra o quão é importante colocarmos na agenda do dia do combate ao golpe o debate racial de forma séria e comprometida com a dimensão que este tema possui frente a conjuntura nacional.

Enfrentamos sim a Casa Grande tomar as rédeas dos territórios e deixar nítido os recados necessários: não suportaremos qualquer afronta ao nosso direito hereditário sobre a propriedade, mesmo que isso signifique a vida e a saúde de vários, principalmente dos negros e indígenas.

É preciso colocarmos em nossa agenda de lutas contra o golpe o genocídio da população negra, a demarcação de terras indígenas e quilombolas, o fim da guerra às drogas, a reforma agrária, democratização da comunicação e o combate cotidiano ao feminicídio.

Pau D’Arco e a incursão na Cracolândia são mais um passo ao fechamento do regime político por aqui.

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