Fonte: Blog Lúcio Flávio Pinto

Publicado em 01.06.2017

Independentemente das informações que ainda precisam ser produzidas, o que recomenda a prudência, a cautela e a honestidade apontadas pelo governador, para “evitar juízos prévios e precipitados”, já não há mais dúvida de que as mortes ocorreram por execução deliberada. Se as vítimas eram bandidos e se havia motivo para a polícia se prevenir, nada justifica a ação violenta, incompetente e – talvez – de má fé da polícia.

O governador Simão Jatene demorou toda uma semana para se manifestar publicamente sobre a matança do dia 24 na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, no sul do Pará. Mas não o fez, ontem, através de entrevista coletiva à imprensa ou por uma cadeia de emissoras de rádio e televisão. Seu pronunciamento foi na forma de um vídeo, eficiente meio de comunicação, mas tosco e inadequado diante da gravidade do caso.

Como tem sido a regra do seu comportamento diante de situações explosivas e dramáticas, o governador, aquele que por mais vezes foi eleito pelo povo para o cargo, prefere a solidão, que o preserva de questionamentos imediatos. Quer falar sem contradita, como se fosse um juiz e não o detentor de função política, tendo que prestar contas e não sentenciar.

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Frame do vídeo publicado na fanpage do governador no dia 31 de maio

No seu pronunciamento, Jatene deixou de lado o caso específico da execução de 10 pessoas pela tropa da polícia militar e da polícia civil para proclamar que já há uma tradição de intervenção eficiente e pacífica da força repressiva do Estado nos conflitos agrários e fundiários, dos quais o Pará é – tristemente – líder nacional.

O governador se referiu a seis mil mandados judiciais de prisão que a polícia cumpriu pacificamente e a “centenas” (deixou de lado a precisão estatística) de reintegrações de posse cumpridas pela polícia, “sem que qualquer incidente ocorresse” (a checagem só poderá ser feita quando a lista completa for fornecida ao Ministério Público para análise).

Jatene destacou dois casos exemplares: os assassinatos da missionária Dorothy Stang, em 2005, e do casal de ativistas ambientais Cláudio e Maria do Espírito Santo, em 2011, “nos quais a Polícia cumpriu rigorosamente seu papel, com apuração , identificação, prisão e entrega à justiça dos responsáveis”.

É verdade. A questão é que, nos dois casos, os assassinos foram pistoleiros profissionais, a mando de fazendeiros e madeireiros incomodados pela ação da freira americana e dos dois líderes locais. O gravíssimo no caso de Pau D’Arco é a volta da ação direta da polícia quase como milícia a serviço de terceiros interessados na eliminação do grupo atacado pela força policial.

Independentemente das informações que ainda precisam ser produzidas, o que recomenda a prudência, a cautela e a honestidade apontadas pelo governador, para “evitar juízos prévios e precipitados”, já não há mais dúvida de que as mortes ocorreram por execução deliberada. Se as vítimas eram bandidos e se havia motivo para a polícia se prevenir, nada justifica a ação violenta, incompetente e – talvez – de má fé da polícia.

Como não justifica as divagações abstratas e os circunlóquios em torno da essência da questão do governador no seu pronunciamento através de vídeo difundido pelas redes sociais. A história, mais uma vez, bate à porta de Simão Jatene e ele manda dizer que não está.

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